Ceni cria um problema que obriga o Palmeiras a desafiar sua identidade tática para superar o Bahia
- 06/10/2026
Rogério Ceni chega ao confronto com o Palmeiras carregando uma estatística que chama atenção, afinal, é o técnico que mais venceu Abel Ferreira na carreira, com seis triunfos em 16 encontros. O número é verdadeiro, mas também é insuficiente para explicar por que esse duelo costuma produzir problemas para o português. Até porque Abel ainda leva vantagem no retrospecto, com sete vitórias, três empates e seis derrotas.
Ceni não incomodou Abel simplesmente porque encontrou uma fórmula para ganhar dele. Em diferentes trabalhos, conseguiu montar equipes capazes de tirar o Palestra da zona de conforto. No caso do Bahia atual, o olhar aguçado oferece uma pista ainda mais interessante, pois o treinador transformou o próprio desenho da equipe em uma ferramenta para criar dúvidas no adversário. É quase um jogo de xadrez antes mesmo de a bola rolar.
O Bahia passou a trabalhar com um sistema híbrido. Quando tem a bola, pode se organizar em 3-3-4 ou 3-2-5, com Luciano Juba abandonando a posição de lateral e entrando por dentro para participar da construção. Sem a bola, porém, a equipe retorna ao 4-4-2. Ou seja: o desenho que o Palestra enxergar em uma fase do jogo não necessariamente será o mesmo que encontrará alguns segundos depois.
Juba é justamente uma peça que explica a lógica. O lateral deixa de ser apenas lateral para se transformar em um homem de meio-campo na fase ofensiva. Isso cria superioridade por dentro sem que Ceni precise abandonar a estrutura de quatro defensores quando precisa se defender. No Ba-Vi em que retomou esse modelo, Juba foi apontado como um dos principais articuladores do Bahia, em uma mudança de função.
O desafio posto ao Palestra
É aí que começa o verdadeiro problema para o Palmeiras. Como marcar um time que não apresenta a mesma fotografia durante todo o jogo? Se o Verdão acompanhar Juba como lateral, pode permitir que ele receba por dentro. Se um meio-campista assumir essa responsabilidade, abre-se a possibilidade de outra movimentação do Bahia. Ceni não precisa necessariamente vencer a batalha individual. Basta criar uma sequência de pequenas decisões difíceis para o desempenho Alviverde.

O interessante é que isso encontra um Palestra que também passou 2026 testando diferentes estruturas. A equipe de Abel já utilizou a saída com três zagueiros e diferentes comportamentos para construir a partir de trás, enquanto adaptações de jogadores mudaram o desenho conforme o momento da partida. Portanto, o encontro coloca dois modelos que procuram alterar suas formas durante o jogo.
Por isso, o desafio de Abel é acertar qual versão da SEP será necessária para enfrentar o Bahia de Ceni. Uma estrutura mais próxima do 3-4-3 pode oferecer superioridade na primeira construção e proteger melhor determinadas zonas, mas também pode entregar ao Bahia espaços que Juba sabe ocupar. Uma linha de quatro pode oferecer outras referências defensivas, mas exigirá respostas para as movimentações interiores do adversário.
Sem Abel, Verdão terá a missão de manter a identidade
Vale lembrar,que Abel não estará à beira do campo nesta quinta-feira (8). O treinador cumpre suspensão e João Martins deve comandar o Maior Campeão do Brasil diante do Bahia. Isso muda o personagem no banco, mas não muda o problema. Pelo contrário: torna ainda mais interessante observar até que ponto os mecanismos treinados durante a Data Fifa serão capazes de responder sem depender da intervenção direta de Abel durante os 90 minutos.
O Bahia chega justamente em um momento que reforça a importância dessa discussão. Ceni construiu uma sequência de invencibilidade e levou o time de volta à briga pelo G-4. O próprio treinador destacou recentemente mudanças no sistema de marcação e a necessidade de sustentar esse modelo diante de uma sequência pesada de adversários. Não se trata, portanto, de um Bahia experimental que ainda procura sua identidade. Há uma ideia sendo consolidada.
É por isso que os seis triunfos de Ceni contra Abel devem ser tratados como contexto, não como explicação. Transformar o duelo em “o algoz contra a vítima” seria reduzir uma discussão tática interessante a uma estatística de pré-jogo. O retrospecto serve para despertar a pergunta. O modelo é que fornece a resposta. Neste caso, o Bahia oferece ao Palmeiras um problema que não se resolve simplesmente escolhendo os onze melhores jogadores.
No fundo, com estas características que expõem o perfil do tricolor baiano, fica nítido que a missão de Rogério Ceni é provocar o Verdão em suas próprias escolhas. Escolher quem acompanha Juba. Escolher como construir. Escolher onde pressionar. Escolher quando formar três e quando retornar à linha de quatro. Quanto mais decisões o Bahia conseguir impor, maior será a chance de tirar o Palmeiras do roteiro que normalmente pretende executar.
A verdadeira disputa que está em jogo na rivalidade
A verdadeira disputa entre Ceni e Abel está na capacidade de cada modelo obrigar o outro a abandonar suas certezas. Ceni já mostrou que sabe transformar o Bahia em uma equipe diferente conforme a fase da partida. Agora, o Palmeiras terá de responder a uma pergunta muito mais importante do que “quem vai jogar”: qual versão do Verdão consegue enfrentar um adversário que muda sem necessariamente parecer que mudou?









































